quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um cepticismo lógico

Os leigos devem ouvir com um misto de humildade e cepticismo as opiniões dos especialistas. No que ao cepticismo diz respeito, não conheço nenhum conselho melhor do que o de Bertrand Russell, publicado num ensaio em 1928. Recorrendo à lógica, escreveu o filósofo inglês: “(1) quando os especialistas estão de acordo, a opinião contrária à deles não pode ser considerada segura; (2) quando os especialistas não estão de acordo, nenhuma opinião pode ser vista como segura por um não especialista; (3) quando todos os especialistas dizem que não há evidência suficiente para sustentar uma opinião, um leigo faz bem ao suspender o seu julgamento sobre o assunto.” 

Sou tão bom como tu

“Sou tão bom como tu” é uma das ideias mais perigosas para a democracia, como há 90 anos Ortega y Gasset percebeu de forma perspicaz no seu mais célebre livro: “A rebelião das massas”. Sem as “minorias excelentes”, como lhes chamava o filósofo espanhol, a nossa civilização desabaria em três tempos. Tudo o que temos hoje ao nosso dispor não foi colhido das árvores, desde a democracia aos mil e um confortos materiais. Tudo isto é fruto do trabalho, do sacrifício e do génio descomunais de alguns indivíduos. A passagem pelo ensino superior devia servir, entre outras coisas, para percebermos que há pessoas melhores do que nós em muitas coisas ou competências, como agora se diz. Infelizmente, a própria educação alimenta hoje essa ideia igualitarista e fatal: “Sou tão bom como tu”. Não, não sou. E, na verdade, não é assim tão difícil admitir o óbvio.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Aguentem!

Ainda não sabemos quantas pessoas morreram em consequência dos incêndios do mês passado, mas já temos uma crise com as matrículas na escola para nos distrair, os incêndios continuam e o SIRESP falha "pontualmente" quando é preciso que não falhe. Supostamente, a virtude da Geringonça era que os partidos da Extrema Esquerda que apoiavam o PS iriam fiscalizar o PS. Dava muito jeito fiscalizar o PS porque estas pessoas que andam pelo governo PS não são muito diferentes das pessoas que andavam pelo governo PS de José Sócrates e, se fossem competentes, o país não teria ficado à beira da bancarrota -- a lógica é uma coisa lixada!

Já vi pessoas a achar que o Presidente da República devia demitir o governo. Demitir para quê? Se houver eleições, o PS volta para o governo. Percebem porque é que Cavaco Silva não demitiu o governo de José Sócrates? Porque não teria adiantado nada pois os portugueses o teriam enfiado outra vez no governo. Agora aguentem e tentem manter-se vivos, mas não contem com a assistência das autoridades.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Pornografia crepuscular

O Verão é sempre uma chatice porque há umas almas em Portugal que enchem a Internet de pornografia balnear: sim, fotos das praias, com o marzinho azul, tão azul que uma pessoa fica a olhar atentamente para as fotos a pensar se é mesmo assim ou se é produto de Photoshop. Devia ser crime Portugal ser dotado de um mar assim...

Pois bem, chegou a minha desforra! No Sábado, tive um jantar em que tirei umas fotos por altura do crepúsculo. Apesar de não ter visto vampiros cintilantes e sexy, garanto-vos que o céu de Houston estava deslumbrante e eu tenho imagens da pornografia crepuscular para o provar!

Uma semana em cheio

Parece que foi há muito tempo, mas foi apenas na última Quarta-feira que o The New York Times publicou uma entrevista com o Presidente Trump, na qual ele disse duas coisas que causaram furor: (1) se ele soubesse que Jeff Sessions se afastaria da investigação da interferência da Rússia nas eleições americanas, não o teria convidado para Attorney General; e (2) deu a entender que a hipótese de afastar Robert Mueller, o Special Counsel que está a investigar as ligações à Rússia, ainda está a ser considerada.

A cadeia de comando é a seguinte: Mueller trabalha independentemente, mas sob Rod Rosenstein, o Deputy Attorney General. Rosenstein trabalha sob Jeff Sessions, mas este afastou-se da investigação da Rússia, e Jeff Sessions trabalha sob o Presidente. Há falta de clareza acerca do poder do Presidente de afastar directamente Mueller, mas poderia ordenar a Rosenstein que o fizesse. Rosenstein já disse que não afastaria Mueller, logo o Presidente poderia afastar Rosenstein e o seu sucessor poderia afastar Mueller sob ordens do Presidente -- a questão, nesse caso, reduzir-se-ia a o Presidente encontrar alguém que se disponibilizasse a fazê-lo. A CNN tem uma peça que discute as opções legais disponíveis para o Presidente Trump interferir com a investigação de Mueller. No entanto, se Trump decidir afastar Mueller, a haver consequências, estas necessitariam de uma acção do Congresso e, neste momento, não se sabe se existe vontade política nesse sentido.

Depois da publicação da entrevista ao NYT, muitos analistas concluíram que as declarações do Presidente Trump se reduziam a um desejo de que Jeff Sessions apresentasse a sua demissão, mas Sessions disse que não o faria. Quase a seguir, surge uma notícia publicada no The Washington Post a indicar que havia comunicações interceptadas pelas agências de espionagem americanas que indicavam que Jeff Sessions teria discutido questões da campanha presidencial de Trump com o Embaixador da Rússia nos EUA, Sergey Kislyak. Se tal for verdade, entraria em conflito com o testemunho passado de Jeff Sessions ao Congresso, o que seria uma razão para a sua demissão.

Entretanto, Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, demitiu-se na Sexta-feira, o que aumentou o alvoroço. A razão dada para justificar a sua demissão foi discordar de o Presidente Trump ter oferecido a Anthony Scaramucci a posição de Director of Communications, mas há quem suspeite que isso foi apenas uma oportunidade conveniente para Spicer sair, pois ambos --Trump e Spicer -- estavam "fartos um do outro".

Durante a semana também se discutiu o poder do Presidente em termos de conceder um perdão: será que poderia perdoar a si próprio e a outros intervenientes por acções discutíveis que envolvam a Rússia? A questão do Presidente poder perdoar-se a si próprio tem sido alvo de bastantes peças de opinião, pois o Presidente acha que é indiscutível que o Presidente tenha o poder absoluto para perdoar a quem quer que seja, enquanto que os analistas acham que não tem lógica o Presidente ser juiz de si próprio: até o Papa tem de pedir a outro padre para lhe absolver os pecados.

Outro desenvolvimento foi a equipa de Robert Mueller ter instruído a Casa Branca a reter toda e qualquer comunicação que tenha a ver com a Rússia. Robert Mueller também está a estudar as ligações dos negócios de Donald Trump com a Rússia durante os últimos 10 anos e na entrevista ao NYT, Trump disse que a gota de água seria se Mueller decidisse investigar as declarações de impostos do Presidente. Esta preocupação em não revelar os impostos é suspeita, levando a que Chris Cilizza na CNN ache que "todos os caminhos nos levam às declarações de impostos de Donald Trump."

Esta próxima semana irá continuar a ser interessante, pois Jared Kushner foi chamado a testemunhar no Congresso na Segunda- e na Terça-feiras e muitas das polémicas que têm ocorrido nas últimas duas semanas devem-se à equipa legal de Kushner tentar proteger o seu cliente: foi a actualização dos contactos de Kushner com pessoas de interesse que levou a que se descobrisse a reunião de Donald Trump, Jr., com a advogada russa. Entretanto, há dois dias, Kushner também actualizou as suas declarações financeiras e as de Ivanka Trump, sua esposa, revelando mais de 70 activos anteriormente não declarados "inadvertidamente", o que pode levar a mais polémicas à medida que os jornalistas investigam o conteúdo das declarações.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

A invasão das couves

Hoje decidi deixar o carro em casa e ir a pé até ao café aqui do burgo almoçar. É uma pequena aventura porque algumas das ruas não têm passeio e é difícil navegar quando parte do itinerário não está planeado para peões, a modos que passo grande parte do caminho a pensar que há uma grande probabilidade de ser atropelada. Na restante parte penso que, como já não estou acostumada a passear na rua ao pé de carros, se calhar, é essa a causa da minha pequena fobia. Vivo tão perto de restaurantes, lojas, e paragens de autocarro, que, decidi há uns meses, devia aproveitar e viver mais à "europeia".

Magia



Continuo a ler o livro "Dinner with Persephone -- Travels in Greece" de Patricia Storace. Como o tópico em voga em Portugal é o racismo, recordei-me de uma passagem que li no outro dia, que abordava o tema do preconceito racial, e na qual a autora fala de como a discriminação não é uma coisa estática: nada garante que quem discrimina hoje não seja discriminado amanhã.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

É a mile, é a mile

Sobre as declarações de André Ventura haveria várias coisas a dizer. No entanto, vou notar apenas dois aspectos, que até estão relacionados. 
Por aqui e por acolá, tenho ouvido (lido, sobretudo) gente a desculpar o candidato à Câmara de Loures com recurso ao argumento de que ele só verbalizou um pensamento que é partilhado por muita gente. Ora, eu gostaria de ver Portugal governado por pessoas que vão um bocadinho além do senso comum. É aquela coisa do déspota esclarecido, mas sem a parte do despotismo, só a do esclarecimento.  
A segunda observação que me ocorre fazer é a de que, se eu só for capaz de identificar os ciganos quando eles estão vestidos de preto num bairro social, é possível que acredite que todos eles vivem dependentes da ajuda do Estado. É o preconceito a gerar mais preconceito. Aquela ali em baixo é a Leonor Teles. Faz filmes e ganhou um Urso de Ouro em Berlim. Não anda nas feiras. Quantos reconheceriam que é cigana, com aquele cabelo tão curto?





Mood: very mellow



P.S. Parece que este disco saiu há menos de um mês... Obrigada, Shazam!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Incongruências

"You don't have a shit planet because you have clear thinking people — it doesn't happen. And you don't have shit people and a healthy planet. It will not happen. We're reflections of each other. That's all that is."

Tori Amos, 1992

Inovação sexual

Muitas vezes, penso em antigamente, em como eram as coisas. Só que as coisas nunca foram só de uma maneira antigamente, houve uma evolução ao longo da história. Surpreende-me bastante que as pessoas estejam tão agarradas ao que as coisas são hoje e pensem que chegámos à cúspide da evolução: vai ficar assim até ao resto do tempo porque não pode ser melhor do que isto. Depois sai um telemóvel novo e a malta larga o velho.

Nas relações humanas também é assim. Imaginem quando as pessoas começaram a escrever cartas pessoais umas às outras. Não acham que muita gente deve ter achado uma grande anormalidade? Devia ser mais confortante enviar uma mensagem por alguém -- um intermediário de confiança --, pois uma carta dava a possibilidade de muitas pessoas lerem o que alguém tinha escrito, enquanto que um intermediário de confiança saberia ficar calado.

Já pensaram em inovação sexual? Houve uma altura em que sexo normal e desejável era um em que a mulher tinha uma camisa com um buraco e o homem penetrava-a pelo buraco da camisa quando lhe apetecia ter sexo. Hoje em dia, ter sexo assim, é capaz de ser visto como violação. Sexo como se tem hoje era uma coisa depravada, reservada para quem era imoral, logo associado a amantes e prostitutas.

O sexo homossexual também evoluiu, por exemplo. Na Grécia Antiga, era normal haver relações homossexuais, especialmente nas camadas mais altas da sociedade, desde que se observasse certos costumes relativos à idade dos intervenientes e ao seu papel na relação. Note-se no entanto, que os costumes de homens maduros se associarem a parceiros muito jovens tanto dava para relações homossexuais como heterossexuais, pois quem era penetrado tomava um lugar passivo e inferior na relação, logo não era uma coisa que ficasse bem num homem maduro. Pelos cânones actuais, o que se fazia na Grécia Antiga era uma coisa parecida com pedofilia.

Por falar em pedofilia, vi o filme francês Ma Loute (2016) este fim-de-semana que passou e é interessante como o tema é lá abordado. Mais não digo porque estrago-vos a surpresa, se decidirem ver o filme. (Ah, se ficam enojados facilmente, preparem-se para umas cenas macabras, mas que não têm a ver com sexo.)

Pois, sexo... Se calhar, o Woddy Allen, no filme Sleeper (1973), tinha razão acerca do futuro que nos espera. Realizou-se um inquérito recentemente e parece que os americanos não têm tanto sexo como tinham antes. Ninguém sabe muito bem a razão, mas achei piada a uma parte do artigo da CNN em que se dá a entender que o que é definido como sexo está a mudar, ou seja, a Internet está a contribuir para uma onda de "inovação sexual" e parece que definir sexo não implica necessariamente incluir penetração.
Herbenick, also an associate professor at Indiana University School of Public Health, added that "we may be having less sex, but I would argue it's better sex. We actually don't know if singles are having 'less sex' since the (survey) never defined sex and doesn't ask about the many kinds of sex play that people engage in (including masturbation, oral sex and sex toy play), especially during hookups. It is possible that singles are having less frequent intercourse but about the same (or more or less) of other kinds of sex, such as oral sex or hand stimulation or sex toy play."

~ CNN, 19/7/2017



Gypsy

To the gypsy
That remains
She faces freedom
With a little fear

~ Stevie Nicks



terça-feira, 18 de julho de 2017

Reportagem 25

Foi finalmente anunciada a publicação numa data ainda a determinar dos resultados definitivos da aturada investigação em torno da pergunta o que é o homem, investigação que durou já muitos séculos,

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A gentileza

[Começo por dizer que vou meter a foice em seara alheia e, como tal, peço já desculpa por algum eventual erro ou falta de rigor. No essencial, julgo que os meus argumentos não sairão afectados por tal.]

Este fim-de-semana, o Expresso publicou a entrevista que fez a António Gentil Martins. Havia incêndios em Alijó e Mangualde, mas foram as declarações do médico a pôr o país on fire. Aqui eu devo já esclarecer que não me passaria pela cabeça silenciar o homem. Reconheço-lhe todo o direito a ter a sua opinião e reconheço-me o direito a achar essa opinião abjecta. Como agora sempre acontece, o debate fez-se em trincheiras e cheio de rotulagens imediatas.

Gostando eu de ser um bocadinho do contra, vou pegar numa citação que não tenho vista referida. À pergunta «É católico praticante?», responde Gentil Martins «Sou. Vou à missa todos os domingos e dias santos». E aí temos um entendimento do que é ser-se católico: é ir à Missa. Pronto, assim faz mais sentido. Eu fico sempre muito surpreendida quando vejo pessoas que se autoproclamam cristãs ser sectárias. Das minhas longíquas sessões de catequese, guardo João 8:1-11. É possível que eu tenha dado ao episódio do não apedrejamento da mulher adúltera uma interpretação demasiado livre, mas encontro ali uma enorme mensagem de tolerância. Claro que, quando ser católico é cumprir o calendário ritualístico, a coisa muda de figura. Aí abre-se espaço para o julgarás.

E que julga António Gentil Martins? Segundo ele, a homossexualidade é uma anomalia. Uma pessoa vai ao dicionário e vê que anomalia significa «o que se desvia da norma, da generalidade»; é sinónimo de «irregularidade». Posto em termos estatísticos, nada a opor. Ser homossexual é uma anomalia. Ter gémeos é uma anomalia. Ser caucasiano é uma anomalia. Ter um QI de 120 na escala de Wechsler é uma anomalia. Já afirmar que anomalia foi utilizada na referida acepção é coisa de quem tem QI inferior a 90 ou não está de boa-fé. Porque as palavras foram estas: «Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correcto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio de personalidade.» Médias e probabilidades?! Nãaaaa. Moral. O que Gentil Martins quis dizer - parece-me claro - é que é uma «deformidade, monstruosidade», sentido que também surge no dicionário. Aliás, ele não quis dizer, ele disse-o; afirmou que não está correcto e que é um desvio de personalidade.

Ora, a 17 de Maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. Até então, tinha sido considerada um distúrbio mental, o tal desvio de personalidade. Que um médico, entrevistado na qualidade de médico, perpetue uma noção de 1952 que não encontrou evidência empírica a seu favor parece-me ser caso a levar à Ordem dos Médicos. Seria o mesmo se tivesse defendido a lobotomia. E nada disto tem que ver com coarctar a sua liberdade de expressão. Só, eventualmente, a sua liberdade de ser médico: compete à Ordem avaliar.

Logicamente, o homem, o católico, tem direito às suas concepções morais. Mas olhemos para a sequência da entrevista. Observam-lhe que casou tarde para a época. E ele explica que «Queria escolher bem. Tem de existir uma similitude de ideias e aquela atração que não sabemos porque aparece. Sentir amor por outra pessoa.» Até aqui, totalmente de acordo. Só não percebo o acrescento «Sou totalmente contra os homossexuais, lamento imenso.» E, por isso, a pergunta impôs-se: «Duas pessoas do mesmo sexo não podem amar-se?» Porque, de facto, aquela sequência sugere que a homossexualidade não é uma questão de amor, de afecto, com tudo o que o amor envolve. E a resposta, que inclui a parte da anomalia, começa com «Ouçam, é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres.» Não é exactamente o mundo, é mais a espécie humana, mas, certo, não percamos o raciocínio com questões que podem ser matéria de estilo. E vamos lá aos argumentos...

Em primeiro lugar, se a homossexualidade é a tal anomalia estatística, a sua ocorrência em nada ameaça a sobrevivência do Homem. Se a preocupação é essa, talvez possam libertar o pessoal eclesiástico do dever de castidade, porque aquilo de ter de haver homens e mulheres só funciona se eles puderem copular. O que me leva ao segundo ponto: o imperativo biológico não precisa do amor romântico para nada (eu acho muito estranho ser necessário notar isto a um médico, mas teve de ser). Se nós achamos (e eu acho) que o Homem é mais que pura biologia e que o sexo vai além da reprodução, o argumento contranatura deixa de colher. Um bocadinho de coerência exige-se, por respeito ao ser biologicamente determinado a pensar que somos. Repudiamos um casamento heterossexual em que só um dos elementos é infértil e o sabe? Não, pois não? Então como pode ser isso argumento contra a homossexualidade? Eu percebo que a religião, dado o seu papel normalizador e perpetuador da sociedade, o tivesse considerado um pecado quando a concepção não tinha alternativa médica. Agora que ela existe, a homossexualidade que não se tenta conformar a um padrão heterossexual não é nenhum óbice ao aumento da natalidade. Curiosamente, os que se mostram tão preocupados com a extinção do mundo decorrente de relações afectivas que não podem biologicamente gerar filhos são os mesmos que querem impedir estas pessoas de ser pais e mães com recurso a técnicas de reprodução assistida. Algo aqui me parece inconsistente. Mas pode ser uma anomalia cognitiva minha...

Adenda: Depois da polémica, Gentil Martins enviou uma carta ao Expresso. É caso para dizer que é pior o esclarecimento que a entrevista.
Que ele nunca desejou a celeuma, nós podemos adivinhar. Provavelmente, teria preferido uma ovação, elogios públicos e a subscrição total das suas opiniões. Se não previu a reacção, enfim... Ajuda naquela parte de quem o defende usando a idade como desculpa. E, sim, nós percebemos (estou a ser optimista, quiçá) que não eram os méritos desportivos de Cristiano Ronaldo a estar em causa.
Sobre nunca ter querido ofender a mãe de Ronaldo. Ora bem... Alguém escreve «O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe. Mais: penso que uma das grandes culpadas disto é a mãe dele. Aquela senhora não lhe deu educação nenhuma.» e não quis ser ofensivo??? A sério???!!! Se eu disser a Gentil Martins que um dos filhos dele é um estupor moral e que a culpa é dele, que foi, como confessa na entrevista, um pai «mais do que ausente», ele não vai ficar ofendido? Tenha dó! Até as pessoas que têm um QI não anómalo são capazes de ver isto.
E, caro Gentil Martins, os homossexuais não sofrem com a homossexualidade per se, sofrem com a discriminação de que são alvo, plasmada em entrevistas como a sua.